domingo, 4 de dezembro de 2011

Bahia: Imagens do povo e da terra (1947) - Odorico Tavares


Dando continuidade aos estudos sobre o universo da Capoeira, primordialmente a Capoeira de Angola, me deparei com a obra de Odorico Tavares, Bahia: Imagens da terra e do povo. Confesso o que me chamou a atenção foram as ilustrações de Carybé. Mas logo fui seduzido pelo capítulo sobre a capoeira.
Odorico era um jornalista e em 1947 realizou diversas reportagens para a revista O Cruzeiro, posteriormente reunidos na obra. Em nota da terceira edição Tavares esclarece que incluiu nove capítulos, inclusive um sobre a capoeira e anuncia o que pode o leitor esperar com seu trabalho:

“Verá o leitor que meu encantamento por esta cidade de Salvador não arrefeceu: cresce com o tempo. Não pretende este livro ser um guia e sim páginas de impressões onde se reflete, a cada momento, emoção nem sempre contida, a face múltipla desta cidade conquistada com ternura e amor.” 





Seu roteiro começa sugerindo um lugar para se assistir a capoeira. Sugere o barracão do Valdemar e dá as indicações de como se chegar por lá. Chegado ao barracão, o visitante assistiria bem acolhido e com calma ao jogo da capoeira, que é descrito com riqueza de detalhes por Tavares.

Ilustração: Carybé

Descrito todo o momento do jogo, dos instrumentos aos movimentos, Tavares lança a pergunta: “Sempre houve o jogo da capoeira?”. Para ele, “desde os primeiros momentos da escravidão, vindo da Angola, mas como ato de simulação, escondendo, por trás dele, os verdadeiros intuitos dos seus componentes de se adestrarem para a luta, para o que der e vier.”.

Tavares descreve ainda, a perseguição realizada pelo Estado aos capoeiristas do período da republica no Rio de Janeiro e em Pernambuco, fala dos golpes, os nomes de alguns capoeiristas e apreciadores ilustres ligados ao Estado e a imprensa.

Encerro este post com um trecho da obra que narra a astucia de capoeiras e fico imaginando a cena:

“O cronista de ‘Casos e Coisas da Bahia’ descreve a polícia, na perseguição ao capoeira, de casa em casa, de praça em praça, no cais, nas embarcações. ‘Eis que o sargento mais sagaz põe a mão à camisa do reminante. Este, lesto, quebra o corpo e deixa farrapos nos dedos do detentor. O facão rebrilha sobre sua cabeça. O capoeira finge não ver. Prepara a cabeçada à boca do estômago do policial. Manda-o pelos ares, com descida obrigatória às águas. Sem facão. Sem nada. Acode o companheiro de farda. Nova cabeçada. Mais um homem ao mar. Quantos tenam, seguem o mesmo destino. Desarmados. Desmoralizados...’” (p.188)

Iê a Malandragem!

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